Na Estrada

Coco

O Canal Rural Na Estrada mostra as rotas da produção e o transporte do coco no Brasil.


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RIO DE JANEIRO



Rio de Janeiro. Praia, esportes, calor. Muito sol! Bem, nem tanto. A equipe do Canal Rural Na Estrada não deu muita sorte na passagem pelo Rio. Todos os dias ficaram nublados, sem muito sol. Mas apesar disso, tem muita gente na beira da praia bebendo água de coco. E a tarefa, na Barra da Tijuca, é justamente descobrir de onde vem o coco que o carioca consome.

– Água de coco é mais saudável. Eu não tomo refrigerante, não tomo cerveja. Prefiro água de coco que faz muito mais bem à saúde – diz o comerciante (e veranista) Geraldo Ribeiro.

Entre dezenas de barracas que vendem coco na Barra, tem a do Zé Pretinho, que há 42 anos trabalha na beira da praia.

– O giro é muito grande. Num final de semana, chega a 150 a 200 cocos por dia – diz ele.

E ele responde à pergunta: de onde vem tanto coco?

– Vem da Paraíba, vem do Espírito Santo. Em Itaguaí (interior do Rio) tem bastante coco. Mas mais do nordeste! Quando vem do Nordeste, o coco vem muito mais caro porque o frete é muito alto. Lá o coco deve custar uma coisa mínima, mas o frete encarece o coco. Até chegar na praia todo mundo quer ganhar um pouquinho.

É hora de voltar para a estrada. Como o Zé Pretinho falou, entre o produtor e o consumidor existem muitos intermediários. Um dos caminhos do coco é passar pela Central de Abastecimento (Ceasa) do Rio de Janeiro. Manoel Manhães de Souza vende a fruta desde a década de 70. No auge do verão, ele manda trazer de oito a nove carretas lotadas. O coco do seu Manoel vem de Petrolina (PE), uma longa viagem.

– A margem de lucro é pequena. Mas o volume que a gente vende é muito, então a gente ganha um pouquinho. É no volume que consego lucro. Eu compro aqui e o pessoal vem até aqui para levar para as praias, para os hortifruti, as barracas. Aí eles pegam aqui na loja.

O frete custa cerca R$ 0,25 por unidade, é 10% do valor que o consumidor paga na beira da praia. É assim que um produto que sai barato da lavoura vai aumentando de preço, pouco a pouco.

Quem faz esse transporte é o catarinense José Lopes.

– Uma viagem de Petrolina e Juazeiro até o Rio é em torno de três dias. Não pode ser menos. Tem que fazer em três dias. Existe uma cobrança para que o coco venha rapidamente, porque senão ele estraga. E a pressão é para cima da gente, que carrega, que tem que chegar no dia certo, no horário certo. Mas não depende da vontade da gente. Sendo que qualquer tipo de caminhão dá problema na estrada, mas eles não aceitam. E aí vira correria e loucura.

MERCADO DO PRODUTOR EM JUAZEIRO (BA)

Com calma, sem correria, a equipe pega a estrada para o Vale do São Francisco, na divisa da Bahia com Pernambuco. É do Mercado do Produtor de Juazeiro que saem os cocos que abastecem a banca do Manoel, na Ceasa do Rio. O produto é oferecido por dezenas de atravessadores.

– O senhor faz só o caminho entre a roça e o mercado. A gente só trabalha entre a roça e o mercado. São, em média, 40 quilômetros. Paramos aqui e vendemos para quem leva para fora – explica o distribuidor Roberto Gomes da Costa.

EM ACAJUTIBA (BA)

Em Acajutiva, município recordista em produção, no Estado que mais produz, a equipe encontra o produtor de coco Raimundo de Jesus Andrade. Ele trabalha com toda a família e, cansado de lidar com intermediários, decidiu comprar o próprio caminhão.

– Comprei este caminhão para eliminar os atravessadores. Às vezes a gente tratava para ele vir e tirar o coco e ele não vinha. Pedi a Deus e ele permitiu comprar esse caminhãozinho para tirar do atravessador. O pessoal que fica entre o produtor e o consumidor final ganha bastante dinheiro, mais do que nós, produtores da roça.

– Se ele compra aqui por R$ 25,00, a gente vende lá por R$ 35,00 e R$ 40,00 e R$ 50,00. Já tem alguma coisa a mais. Tem o tirador que vende para o dono do caminhão, que vende lá para os comerciantes. É muito atravessador. O maior problema da cadeia do coco é esse. Porque não tem uma indústria, para onde levar diretamente. Leva para um atravessador, que leva para outro. A gente vai conduzindo. Ninguém sabe o paradeiro final.


EM ITAPIPOCA (CE)


Mas não é apenas a água de coco in natura que é consumida. Tem muita água de coco que é comprada no supermercado, em caixinha. Por isso, o Canal Rural Na Estrada está numa das maiores unidades de processamento do produto do Brasil.

Mais um caminhão chega para descarregar. O trabalho é braçal, pesado. Os funcionários precisam jogar os cocos para cima da esteira. O calor é intenso.

– São nove horas jogando coco de cima do caminhão – diz o funcionário Marcos André de Souza.

– Depois de tanto trabalho, não consigo mais ver coco na frente.

Dentro da fábrica, os cocos são furados, também manualmente. Os trabalhadores espetam o fruto numa ponta afiada e a água desce para a tubulação. Depois o trabalho é simples: a água de coco é filtrada e passa por uma pasteurização, para eliminar microorganismos. O produto vai direto para as caixinhas longa vida.

– Fazemos a extração dessa água. A água passa por alguns tipos de tratamentos térmicos. Esse material de embalagem também recebe tratamento térmico. São cerca de 60 a 65 mil litros embalados por dia – explica o coordenador de produção, Adriano Bezerra.

A fábrica também exporta. Vinte e cinco por cento da produção vai para os Estados Unidos. O transporte pelas estradas brasileiras é outro desafio.

– Essa água de coco tem consumo maior nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste. Produzimos aqui no Ceará e transportamos em carretas para Linhares, no Espírito Santo, onde temos outra unidade, que faz essa cadeia de distribuição – completa Bezerra.

DE VOLTA A ACAJUTIBA

A equipe sai de Salvador, percorrendo a Estrada do Coco e a Linha Verde, para visitar justamente uma das principais regiões de produção de coco verde da Bahia e do Brasil.

Longe das fábricas, os produtores de Acajutiba sofrem com a falta de opções para a venda. O clima influencia e torna o mercado bastante instável. Se faz calor e sol no litoral, as vendas sobem. Se está chovendo na beira da praia, diminui o número de consumidores.

– Tem época do ano que é difícil de vender. Na época de inverno a comercialização fica complicada, dá chuva. Então eu opto por deixar secar. No verão, o (coco) verde atinge R$ 50,00 a R$ 60,00. No inverno cai para R$ 10,00. Daí não compensa e eu deixo secar – diz o produtor José Edson Ferreira dos Santos.

Secar significa deixar o coco verde amadurecer. É um produto com um outro tipo de mercado.

– O seco tem mais facilidade de comercialização, dá 20 dias. O verde são oito dias de validade.

O engenheiro agrônomo André Niedersberg de Ávila trabalha na Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) da região e conhece bem a realidade dos produtores de coco. São pequenos e médios produtores.

– Os pequenos nunca têm condição de adquirir um veículo. Também não têm capacidade de endividamento, nem acesso ao crédito. Isso afeta também a produção. Tem que haver associativismo. Eles precisam se unir para adquirir um caminhão. É uma cadeia muito informal. Do tirador até o consumidor final tem uma série de pessoas que ganham dinheiro aí.

Um em cada cinco cocos produzidos no Brasil é colhido no município de Acajutiba. Dá para ter uma ideia da tarefa deste pessoal. E não existe na Bahia profissional mais tradicional que Teté Messias Alves Costa. Ele sobe no coqueiro 150 vezes por dia, numa jornada de oito horas.

– Mais difícil do que este trabalho pesado de subir e descer é preparar o coco para a entrega. O coco tem que estar pronto, limpo para chegar no consumidor. Até porque daí perde valor e é mais difícil de vender – diz seu Teté.

Para subir é preciso usar um jogo de cordas, que ficam enlaçadas no tronco do coqueiro. Uma corda se encaixa atrás da perna e a outra vai no pé. Alternando os apoios, ele sobe com rapidez.


FAZENDA EM LINHARES (ES)

Lembra dos cocos que o Zé Pretinho vende lá na beira da praia no Rio de Janeiro? Muitos vêm de Linhares, no litoral do Espírito Santo.

– A gente, se puder, tira coco todo dia. O normal é tirar de três a quatro caminhões por semana, dá cerca de 16 caminhões por mês – explica o proprietário de uma fazenda da região, Adilson Bonomo.

Cada funcionário tem uma cota. Num galho de coqueiro, eles fazem as marcas da contagem, de 100 em 100. A encomenda do dia é de 6,5 mil cocos. Não pode sobrar nem faltar.

Na região de Linhares, a colheita do coco acontece o ano inteiro, embora os meses com maior produtividade sejam os do inverno, de junho a setembro. Por outro lado, o maior consumo é no verão, dezembro, janeiro e fevereiro. A distribuição do produto é feita por terceiros.

– Porque isso é mais fácil. Seria mais um problema para eu administrar. O coqueiro dá o ano todo, mas também dá trabalho todos os dias. Então passando o trabalho de distribuição, fica mais tranquilo para mim.

Depois que o coco é colhido, ele já vai direto para o caminhão. Os principais destinos são a Ceasa do Rio e a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp). A carga colhida por Adilson Bonomo vai para Ribeirão Petro, uma viagem de 1,1 mil quilômetros.

O responsável por todo o transporte é o empresário Rogério Subtil. Faz 20 anos que ele começou vendendo coco com um carrinho, na beira da praia. Hoje ele contrata mais de 60 caminhões por mês para fazer fretes e levar o produto para vários pontos do sudeste do país.

– O transporte custa cerca de 50% do valor do coco aqui na roça. Isso porque é um produto grande, pesado, com baixo valor agregado. Hoje um frete está em torno de R$ 1,6 mil, depende da quantidade de caminhões no dia. É um mercado em expansão. Coco é a bola da vez.

Se o sol e o calor não aparecem na beira da praia, sobra coco na lavoura. Se o produtor não se organiza na hora de comercializar, sobram atravessadores. É assim que um produto que sai por R$ 0,50 da fazenda e chega por R$ 2,00, até R$ 3,00, para o consumidor final. Assim é o coco, pesado e desajeitado, que vai de caminhão em caminhão, rodando e encarecendo, pelo Brasil a fora.

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