Análise Anual
Um indicador de confiança setorial busca captar as expectativas dos agentes que atuam no setor específico sobre o comportamento da economia em geral e, sobretudo, sobre as expectativas com relação ao desempenho do setor nos próximos meses.
Há anos, instituições de pesquisa públicas ou privadas se especializam na formulação de índices de confiança para tentar mensurar o grau de otimismo de determinados agentes em relação ao ambiente econômico geral.
A tomada de decisão dos agentes econômicos pauta-se na análise de informações confiáveis da conjuntura atual e das perspectivas dos setores da economia. Para as organizações atuantes nos agronegócios,compreender a expectativa do agricultor é fundamental para o sucesso dos negócios. A confiança do produtor pode ser avaliada pela intenção atual e futura de compra de insumos (fertilizantes, defensivos e outros), equipamentos, sua avaliação sobre o preço do produto cultivado e percepções sobre as condições atuais do negócio.
Diversos fatores dificultam o desenvolvimento de um índice de confiança da agricultura, especialmente a dispersão geográfica da produção e a dificuldade de acesso aos agricultores. Para ser efetivo, um índice de confiança da agricultura deve ser composto por uma amostra de produtores que realmente represente a
realidade do setor, com representatividade estatística e periodicidade na coleta de dados.
Em julho de 2009, a Uni.Business Estratégia, organização de pesquisa, treinamento e consultoria especializada em agronegócios, iniciou a estruturação de um índice de confiança da produção agrícola brasileira. Em agosto de 2010 em parceria com o Canal Rural o indicador passou a ser divulgado na mídia.
Metodologia
A confiança do produtor medida pelo indicador da Uni.Business é avaliada por meio de questões que abordam a sua intenção de compra de insumos, equipamentos e implementos agrícolas, sua avaliação sobre o preço do produto cultivado e percepções sobre as condições atuais do seu negócio. O ICPRural representa a produção agrícola brasileira composta pelas principais culturas (soja, milho, café, citrus, algodão, arroz e cana) enquanto o ICPSoja é específico para a cultura da soja. Em ambos os indicadores busca-se compor a amostra pela ponderação de produtores em função do valor da produção de cada cultura por Estado a partir da PAM (Pesquisa Agrícola Municipal – IBGE).
O ICPRural e o ICPSoja se desdobram em sub-índices que refletem a expectativa para cada uma dessas questões (insumos, equipamentos, preço e condições atuais). O ICPRural e o ICPSoja são apurados mensalmente pela Uni.Business em entrevistas telefônicas com base em uma amostra representativa de produtores de soja, milho, cana, café, arroz, citrus e algodão em 16 estados brasileiros. A coleta é mensal
entre o primeiro e o último dia útil de cada mês.
O indicador varia de 0 a 200 pontos, sendo que o corte entre pessimismo e otimismo se dá em 100 pontos.
Análise da evolução do ICPRural e ICPSoja em 2010
Ambos os indicadores encerraram o ano de 2010 atingindo pontuação recorde no mês de dezembro, embora com pequena variação em relação ao mês de novembro, fato que sugere uma tendência de estabilização. O ICPRural registrou, em dezembro, 118,6 pontos, aumento de 1% em relação ao mês anterior, quando havia registrado 117,5 pontos e o ICPSoja registrou em dezembro, 116,7 pontos, aumento de 2% em relação a novembro quando havia registrado 114,8 pontos.
Ao analisar a evolução do índice no ano de 2010, conforme apresentado na Figura 1, verifica-se que o ano iniciou-se com pessimismo por parte dos produtores, tanto de soja como em geral. Ao longo do primeiro semestre de 2010 o pessimismo intensificou-se e atingiu o menor patamar para os dois índices no mês de
junho. Na ocasião o ICPRural alcançou 73,9 pontos contra os 87,4 pontos registrados em janeiro de 2010, uma variação negativa de 15% no período. Já o ICPSoja apresentou uma queda mais acentuada, de 74,3 pontos em janeiro para 47,2 pontos em junho, ou seja, uma variação negativa de 36%.
Figura 1 – Evolução do ICPRural e do ICPSoja em 2010 (em pontos).

O comportamento
O comportamento do ICPRural durante o primeiro semestre de 2010 foi influenciado principalmente pelas culturas de soja e milho. Os produtores rurais em geral estavam bastante desanimados com os preços dos produtos agrícolas, de modo que o sub-índice Preço (ICPRural) atingiu o menor nível em abril de 2010,marcando 56,8 pontos. No caso da soja o sub-Índice Preço chegou a 10 pontos em março e 11,4 em abril refletindo o alto grau de pessimismo dos produtores de soja na ocasião.
A menor confiança dos produtores rurais do primeiro semestre também foi influencianda pela avaliação dos mesmos em relação às condições atuais do seu negócio à época. Os sub-índices Condições Atuais Rural e Soja alcançaram respectivamente seus níveis mais baixos em abril (65,4 pontos) e em junho (23,6 pontos).
Com a recuperação das cotações internacionais das commodities agrícolas no segundo semestre de 2010 o produtor rural brasileiro retomou sua confiança. Com exceção dos produtores de arroz que apresentaram níveis de confiança superiores no primeiro semestre e dos produtores de cana que mantiveram sua confiança relativamente estável ao longo de todo o ano, os produtores de milho, algodão, café, citrus e soja influenciaram o aumento da confiança registrado pelo ICPRural a partir do segundo semestre.
A partir de julho de 2010 a curva de confiança do ICPRural e do ICPSoja inverteu o sentido e começou a subir. Em setembro de 2010, ao atingir 102,2 pontos o ICPRural registrou o otimismo dos produtores rurais brasileiros. No caso do ICPSoja o otimismo foi registrado a partir de outubro quando o indicador atingiu
104,1 pontos.
A confiança dos produtores continuou crescendo e fechou o ano em patamares recordes conforme já mencionado. Entre o nível mais baixo de confiança em junho e o último mês do ano o ICPRural passou de 73,9 pontos para 118,6 pontos, um crescimento de 60%. O ICPSoja que marcou 47,2 pontos em junho atingiu 116,7 pontos em dezembro, uma elevação de 147%.
Comparando-se a confiança inicial em janeiro (87,4 pontos) com a confiança final do período, em dezembro (118,6 pontos), o ICPRural registrou um crescimento de 36%. Fazendo a mesma comparação para o ICPSoja, foi verificado um crescimento de 57%. De 74,3 pontos em janeiro para 116,7 em dezembro.
O comportamento do ICPRural e do ICPSoja no segundo semestre de 2010, assim como no primeiro, também foi reflexo principalmente dos preços dos produtos agrícolas e da avaliação por parte dos produtores rurais acerca das condições atuais do seu negócio em comparação com a safra anterior.
O sub-índice Preço (ICPRural) atingiu o maior nível em dezembro de 2010, marcando 146,1 pontos. No caso da soja o sub-Índice Preço chegou ao recorde de 150,5 pontos em novembro. Os sub-índices Condições Atuais alcançaram seus níveis mais altos em dezembro de 2010. Respectivamente 142,5 pontos no caso do sub-índice Condições Atuais do ICPRural e 143,5 pontos no caso do sub-índice Condições Atuais do ICPSoja.
As tabelas 1 e 2 apresentam a evolução do ICPRural, do ICPSoja e de seus sub-índices ao longo de 2010.
Tabela 1 - Evolução do ICPRural e seus sub-índices em 2010 (em pontos).

Tabela 2 - Evolução do ICPSoja e seus sub-índices em 2010 (em pontos).

O sub-índice Insumos que trata da disposição dos produtores para adquirir insumos para a produção também apresentou comportamento de queda da confiança no primeiro semestre, tendo atingindo o menor patamar em junho, tanto para o ICPRural como para o ICPSoja, e recuperação ao final do segundo semestre. No entanto, as variações nos níveis atingidos por este sub-índice não foram tão bruscas como nos sub-índices Preços e Condições Atuais. O sub-índice Insumos (ICPRural), variou positivamente 13% entre janeiro e dezembro e o sub- índice Insumos (ICPSoja) aumentou 10% no período. Tal resultado indica a cautela dos produtores rurais brasileiros para a compra de insumos, mesmo quando estão otimistas.
O sub –índice-Equipamentos que trata da disposição dos produtores em adquirir novos bens de capital para seu negócio comportou-se da maneira diferenciada dos outros sub-índices. Os maiores níveis de confiança foram registrados no início do ano (entre janeiro e março), com posterior queda a partir de abril e ligeira retomada a partir de agosto, sem contudo retornar ao mesmo patamar registrado no começo do ano.
Considerando-se o período entre janeiro e dezembro o sub-índice Equipamentos (ICPRural), variou negativamente 12% e o sub-índice Equipamentos (ICPSoja) caiu 15% no período. Tal resultado pode refletir o endividamento do produtor, que, mesmo otimista com a atividade agrícola, ainda está cauteloso para realização de investimentos. O resultado também sugere que a aquisição de equipamentos pelo produtor deve ser bastante influenciada pela adoção de políticas públicas direcionadas, como a concessão de crédito. Assim a incerteza política pode interferir na confiança do produtor.